De onde vem o eu

Uma tentativa de entender de onde vem o que eu chamo de "eu", escrito entre crises, leituras e o silêncio que sobra quando as certezas vão embora.

Com o passar dos anos, eu comecei a estranhar o próprio ritmo da vida: acordar, repetir os mesmos padrões, uma coreografia automática. Num intervalo entre uma tarefa e outra, veio a pergunta que não me larga: por quê?

Foi aí que eu tropecei no absurdo de Camus. A ideia de que a vida não vem com um significado pré-instalado bateu forte: primeiro como tristeza, depois como liberdade. O absurdo nasce do encontro entre o nosso desejo de sentido e o silêncio indiferente do universo. Se não há sentido pré-determinado, somos nós que o inventamos. Mas aí veio a outra pergunta: quem é esse “nós”?

Tentei reparar no meu próprio “eu” como quem tenta achar a origem de um vazamento, ou dizendo mais no meu dia-a-dia, tentando debugar um novo comportamento não esperado (feature ou bug?). A forma como falo lembra um amigo da infância. Algumas manias parecem cópias inconscientes dos meus pais. Minhas opiniões, quando vou desenterrar, têm raízes em livros, em conversas, em pessoas que passaram por mim tão rapidamente que talvez nem lembrem do meu nome.

A minha individualidade é, na verdade, um mosaico. Um patchwork de vozes, gestos, traços, gostos, irritações e sonhos que não nasceram comigo. Sou feito de influências que absorvi sem pedir permissão, que me moldaram sem que eu percebesse. E aqui mora o paradoxo: eu quero ser eu mesmo, mas o meu “eu mesmo” parece ter sido escrito por um monte de gente que nem sabia que estava escrevendo.

Talvez eu esteja só redescobrindo uma ideia bem freudiana: o mundo lá fora me influenciou e ficou aqui dentro. Coisas que eu aprendi, engoli, reprimi, transformei em regra. Desejos que eu juro que são meus, mas que têm um cheiro estranho de aprovação. Medos que eu trato como instinto, mas que têm o formato exato de uma frase que eu ouvi cedo demais.

Às vezes suspeito que boa parte do meu "querer" é só uma forma educada do meu organismo pedir: me vejam, me aceitem.

Em algum momento a gente percebe que carrega uma espécie de plateia interna. Um tribunal invisível. Uma coleção de olhares: família, amigos, professores, amores, desconhecidos que marcaram mais do que deveriam. A gente diz "eu", mas tem dias que esse "eu" parece lotado.

Sartre dizia que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não tem escapatória confortável. Mesmo quando eu tento me esconder atrás do "é assim mesmo", "todo mundo faz", "não tinha opção", ainda sou eu escolhendo. Escolhendo não escolher, escolhendo me anestesiar. E a má-fé de fingir que não decido para não sofrer o peso de decidir.

Ainda assim, existe um abismo entre liberdade como condição e liberdade como sensação.

Mas, se a liberdade é uma condição, por que ela não vem com a sensação de facilidade? Por que escolher parece tão estranho?

Porque o estranho é o preço de sair do automático.

Talvez seja isso. Liberdade não se sente como leveza constante, nem como autonomia plena. Ela se parece mais com um incômodo, um espaço mínimo entre o impulso e o ato, entre a vontade e o hábito, onde eu consigo perguntar: isso é meu ou eu só aprendi a querer assim?

Frankl dizia que se eu não controlo tudo que me atravessa, ainda posso escolher minha postura diante disso. Uma convocação para responder à vida com o sentido que eu decidir sustentar.

Mas como sustentar alguma coisa se eu não sei o que é meu?

Eu tenho tentado um método tosco: observar o meu querer como quem observa um animal arisco. Tem vontades que gritam, vêm com ansiedade, comparação, urgência, vitrine. Querem provar alguma coisa, muitas vezes para alguém que nem está mais aqui. Têm um gosto de "depois disso eu finalmente vou..." Elas não pedem calma, pedem performance.

E tem outras que falam baixo. Quase não parecem desejo, parecem só um alinhamento, um "sim" quieto. Não me deixam eufórico, me deixam inteiro. Eu consigo ficar sozinho com elas sem precisar contar pra ninguém.

Talvez seja uma pista: o que é meu resiste ao silêncio e o que não é, precisa de barulho.

E aí tem uma ironia: eu só faço esse trabalho de me observar porque fui atravessado por outros antes.

Porque li Camus e encarei o absurdo.
Porque li Sartre e entendi que até fugir é uma escolha.
O resto veio como eco: Freud e Frankl só deram nome (e direção) pra um conflito que já estava em mim.

Então talvez a individualidade não seja a ausência do outro. Talvez seja o jeito único que eu dou ao que veio do outro.

A pergunta certa talvez não seja "de onde vem o eu?" como se houvesse um ponto inaugural, uma origem que explicaria tudo. Talvez a pergunta seja mais viva: de onde vem o eu de hoje?

Não acho que exista um "eu verdadeiro" escondido em algum lugar. O que existe é esse amontoado de vozes e, de vez em quando, um pequeno espaço entre elas. Um intervalo em que eu consigo notar: essa pressa é minha ou é medo de ficar pra trás? esse sonho é meu ou é uma forma de pedir permissão?

Nem sempre eu sei. Às vezes a única honestidade é admitir: ainda não.

Mas só de perceber a pergunta antes de agir, alguma coisa já muda. Nem que seja um milímetro.

E ultimamente é nesse milímetro que eu tenho morado.