Reaprendendo a se perder
É curioso como confiamos tanto nos adultos quando somos pequenos. Cada regra é um mapa detalhado de como viver, cada instrução um GPS interno que nos guia: "vire à direita", "não siga por ali". Até o dia que a gente questiona e desvia dessas rotas sugeridas.
São nesses momentos de desvio que começamos a moldar quem somos e a rabiscar nosso mapa. Uma pequena decisão que pode mudar todo o trajeto. Como escolher um caminho diferente voltando pra casa, ou falar com aquela pessoa que sempre víamos mas nunca cumprimentamos. De repente, redescobrimos lugares e pessoas por onde passamos e cruzamos mil vezes, mas nunca realmente vimos.
Os instantes dessas pequenas descobertas e desvios de rota planejada ficam guardados em algum lugar dentro da gente, esquecidos. Às vezes uma música, um cheiro ou uma tarde de domingo traz elas de volta. E então percebemos que os momentos em que nos desviamos não eram erros, mas as primeiras vezes que encontramos nossa própria direção.
Vivemos num mundo obcecado com destinos e objetivos, como se a vida fosse um Waze emocional indicando a rota mais rápida para a felicidade. A felicidade não é (ou não deveria ser) um destino fixo no mapa. Pra mim ela apareceu nos desvios: numa xícara de café quando está chovendo, num livro encontrado por acaso, numa conversa que se estende pela madrugada, na fala “Pai, olha o que eu aprendi” do meu filho. São momentos que não planejei, só vivi.
O engraçado é que cada pessoa acaba criando seu próprio mapa ao longo da vida, com legendas e símbolos que só fazem sentido para si mas mesmo assim, ficamos comparando rotas com os outros, como se estivéssemos todos indo para o mesmo lugar, no mesmo ritmo, com as mesmas paisagens pelo caminho. Mas essa comparação nunca vai fazer sentido. Cada mapa é único, desenhado à mão por experiências que só nós vivemos.
Enquanto criamos nossos próprios mapas, carregamos o medo constante de nos desviarmos do caminho “correto”. Achamos (ou somos ensinados) que estar perdido é um fracasso, que a dúvida é uma fraqueza, que hesitar é perder tempo. Sentimos angústia quando não sabemos qual direção tomar, quando o caminho não está claramente marcado à nossa frente. É como se a incerteza fosse uma ameaça, não uma possibilidade. Esquecemos que precisamos constantemente reaprender a confiar no instinto, a seguir sem mapa, para que assim rabisquemos um novo caminho.
Parar de ter medo de nos perder talvez seja um atalho no caminho de qualquer destino. Quando aceitamos que as ruas sem saídas, os atalhos inesperados, os momentos de dúvida nos levam exatamente onde precisamos estar. Nossa jornada não precisa ser em linha reta para fazer sentido, porque não há destino, só as descobertas que faremos quando sairmos da rota.